Saúde Mental e a Vida Universitária

Durante nossa vida, cada uma de nossas vivências nos dá uma forma nova cheia de tamanhos, geometrias, texturas, cores e sabores e, diante de tudo isso, crescemos. Crescemos coloridamente únicos e seguimos buscando por novos gostos, cheiros e formatos cada vez mais inspiradores, individuais, diferentes e desafiadores. Às vezes, algumas situações nos exigem que nossos formatos espalhafatosos se diminuam ou percam um pouquinho dos tons vívidos, mas logo, logo conseguimos recupera-los e ressignifica-los, afinal isso faz parte da existência e do anseio por sermos melhores.

Nesta caminhada, jovens com sonhos que colorem, com responsabilidades que mesclam e pressões familiares e sociais que borram, chegam à universidade. Já no primeiro período, cores em tons pasteis começam a aparecer: o desânimo se manifesta, mas a crença de um futuro melhor os fazem seguir em frente. Mas o dia-a-dia vai se tornando cada vez mais nublado e então as exigências, a carga horária pesada de aulas e leituras, os compromissos e trabalhos se tornam uma assustadora tempestade que escurece o céu do amor próprio e nada faz desanuviar.

Nessa fase tudo é novo, até mesmo a necessidade de ir se diminuindo, se cortando, se descolorindo até caber nos moldes do cubículo apertado, cinza, objetivo, hierárquico e não-autônomo do modelo de ensino superior no Brasil. O EU começa a duvidar de suas cores, formatos, potências e se aceita cubículo quadrado, preso, sem voz, sem nota, reprovado, sem o direito de ter sonhos, fracassado. Se aceita tanto que até esquece do já foi um dia, de suas possibilidades de alcance, luz, voo, criação, liberdade, já nem mais se sente parte. O sufoco de ter que fazer caber tentáculos de subjetividades num quadrado pequeno tira o fôlego, machuca, corta, deprime, atrofia.

A produção de conhecimento baseada em métodos arcaicos nos acorrenta, causa medo, frustração e crises de ansiedade. Cada encontro com o orientador é um decreto de incapacidade. Assim, o modo de produção capitalista neoliberal e a posição que o nosso país ocupa na divisão internacional do trabalho amplificam as cobranças, a falta de autonomia e nos encarceram na hierarquia devido às exigências conservadoras da academia de produzir, produzir, produzir, produzir. Com isso, as pesquisas científicas que antes faziam tanto sentido para nós se tornam um martírio, uma tortura psicológica que influencia diretamente na nossa saúde mental.

Os nossos jovens estão doentes. Os nossos jovens estão depressivos. Os nossos jovens possuem crises de ansiedade. Os nossos jovens possuem crise de pânico. Os nossos jovens não possuem tempo, nem espaço para SER. E isso não é nossa culpa. Nós não ficamos doentes porque somos preguiçosos ou porque estamos “vagabundando”, ficamos doentes porque temos que fazer nossa grandeza caber naquele quadradinho. A nossa geração mudou, evoluiu. Nossa forma de pensar e trabalhar não é mais linear. Ficar sentado por horas olhando para a nuca do colega da frente não nos contempla mais. Tudo isso é pouco. Nós não cursamos DISCIPLINAS. Nós não temos que PROVAR nada pra ninguém, além de nós mesmos. E esse infeliz aumento de casos de universitários e universitárias com depressão é a prova concreta de que educação não vai para frente se não estiver de mãos dadas com as produções e vivências culturais. A arte, tão fundamental na geração de seres humanos melhores é completamente ceifada no ambiente acadêmico, pois todo tipo de cultura que se revela e se mostra na educação tradicional é criticada, deslegitimada e mal vista.

Sendo assim, o experimento do lúdico, do subjetivo, do musical, da ilustração, do fotográfico, da dança, dos ritmos refletirá na formação do jovem como ser humano mais capaz de adentrar o mercado de trabalho com saúde mental, segurança, empatia, e, acima de tudo amor próprio.

É preciso ir além, é preciso sentir. É preciso se relacionar. Temos que abrir nossa alma e nos permitir o afeto, mesmo que em locais burocráticos, hierárquicos, acadêmicos, profissionais. Temos que evitar o modelo de raciocínio que elimina a possibilidade de existência das diferenças. Só assim ampliaremos as concepções morais e mentais, tendo em vista que a prática do afeto é tão importante quanto os esforços para desenvolvimento intelectual. Sendo assim, estamos diante da escolha de rearranjarmos nossa relação com o mundo e nossos próximos de forma a ser e nos expressarmos com mais espaço e liberdade gerando seres humanos mais éticos e comprometidos em não causar dor no outro.

Durante a sua graduação desenhe, pinte, borde, cante no chuveiro, toque violão, se matricule numa aula de luta, VIVA, SINTA, SEJA! Não se permita ser quadradinho inerte. Acredite em você e nas suas variadas formas em constante movimento!

Alanna Fernandes

About Alanna Fernandes

escreve poesia, produz áudio-visuais doidera e compõe umas canção tristona no violão

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