Das vezes que pensei em me matar

 

Para Francisca Moraes da Cruz

Já pensei para além das dezenas de vezes de, do nada, me jogar do primeiro andar da academia,
me esparramar no meio de todo mundo, sujando de sangue o chão zelado e formoso.
Mas desisto ao lembrar do canto dos pássaros, ao lembrar do afago azul da garoa que chega sem aviso.
Já pensei tantas vezes de me lançar da ponte e deixar-me ir na correnteza incerta do rio para depois da eternidade. Mas desisto ao lembrar do repouso dos bichos: mansos e intocáveis no sono dos justos . Já pensei incansáveis vezes de me atirar na frente do primeiro ônibus em alta velocidade que passa na avenida, atrapalhando o tráfego, tal qual a música de Chico. Mas desisto ao lembrar das penas das gaivotas. Ao lembrar do som da manhã se abrindo com o beijo de minha vó de bom dia.

Ítalo Lima

About Ítalo Lima

Ítalo Lima nasceu em Teresina/PI. Formado em Publicidade e Propaganda e cheio de inquietações na pele. Poeta em estado constante de aflição. Amante confesso da palavra desde a infância, mas foi a partir dos 18 anos que assumiu abertamente o ofício como poeta. Em 2014 criou o projeto no Instagram (@italolimapoesias) onde vende poesia em moldura e até hoje vem curando a solidão através de quadros poéticos. Da solidão ao erotismo, cada verso parece rasgar a pele sem nem sequer pedir licença, inocente, o poeta Ítalo Lima escolheu a poesia como uma forma de retornar ao útero. Autor também da obra "Quando a gente se mata numa poesia", lançado em 2017, na Bienal do livro, no Rio de Janeiro.

View all posts by Ítalo Lima →