Marcia Barbieri : O Exílio do Eu ou a Revolução das Coisas Mortas

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Reviewed by Felippe Regazio

"Não sei se a culpa era dos pelos grossos que cobriam todo o meu dorso ou do meu chapéu coco um tanto masculino. O fato é que ele não parecia reparar que eu era de uma espécie inferior a sua. Estendi meus dedos em volta do pescoço como se procurasse um pomo de adão ou desapertasse uma gravata borboleta que não existia. Ele reparava em meus movimentos e pigarreava de alegria, afinal, éramos tão parecidos que ele podia se deitar na minha cama e não tocar no meu sexo, porque meu órgão era grande, pesado e imponente como o dele e como dos touros que não foram castrados. Eu não era como as outras que tinham as genitálias escondidas na abstração e nas gretas do corpo, meu clitóris despencava das minhas ancas como um sino enferrujado prestes a cair. A mulher é cheia de pretensões e na sua cabeça germinam apenas futilidades, diz conhecer o abismo dos homens, enquanto sua alma não passa de um porão cheio de quinquilharias. Como poderia adivinhar a ranhura na face do macho? No entanto, qualquer pedra desse jardim pode dissertar mais sobre a evolução humana do que esse ser rastejante originário da vértebra fraturada de um cão sarnento. Eu não tocaria na vagina de uma mulher nem que me pagassem, todas elas são dentadas" Do livro: O Exílio do Eu ou A Revolução das Coisas Mortas. Este é um livro de contos. O exceto acima é de um dos contos. Não há mais nada a ser dito. Márcia Barbieri é uma lâmina.

Autor

Marcia Barbieri

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Gênero Conto
Since 2017